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Ser idoso em plena pandemia

Este foi o mês das celebrações do dia mundial do idoso. O mês em que, por excelência as várias instituições tentam, através das formas mais criativas celebrar a vida e repensar o processo de envelhecimento dos seus idosos. No entanto este ano terá sido, com toda a certeza, bem diferente. Este ano, estes idosos viram e continuam a ver as suas vidas em pausa até haver ordem em contrário- e que bem que a têm cumprido. Importa saber realmente de quantas pessoas estamos a falar e em que situação de vida se encontram. Segundo o INE, em 2019, existiam 2.280.424 pessoas com mais de 65 anos. Já segundo o relatório de 2018 da Carta Social existiam um total de 274 000 vagas em respostas socias para idosos (Serviço de Apoio Domiciliário [SAD], Centro de Dia e Estruturas Residenciais Para Idosos [ERPI]) sendo que destas existiam 100 000 vagas para ERPI. Diz-nos, também, este relatório que, ainda no ano de 2018, as vagas para ERPI apresentavam uma taxa de ocupação de 98%. Acerca do corrente ano não temos ainda dados, no entanto sabemos, como disposto no texto anterior, que o índice de envelhecimento tem crescido de ano para ano e, por isso, o número de pessoas idosas a fazer usos das vagas disponíveis também terá, expectavelmente, aumentado. Ora, apesar de parecer que foi ainda ontem, as restrições impostas aos nossos idosos, como medida de combate a propagação do Sars-Cov-2, já decorrem há praticamente 9 meses. Falamos de restrições de liberdade consideráveis nomeadamente a restrição da liberdade de sair do lar, de receber visitas (excepto o SAD que se antes do Covid já era consideravelmente insuficiente para suprir as necessidades dos idosos o que será agora…), de estar com família e amigos e, no fundo, da liberdade de dispor do seu tempo vital- seja ele muito ou pouco- e de aproveitar os seus dias da forma que lhes aprouver.  E que consequências é que este tempo de “reclusão” terá sobre os 2.280.424 idosos portugueses? Como podemos ajudar a aliviar os efeitos tão profundos da solidão, do desalento e da aparente situação de abandono ainda que sob intenção de os proteger e salvaguardar? Bem a resposta imediata é óbvia: se realmente quisermos ajudar estes idosos em reclusão forçada teremos de ficar em casa sempre que for possível. Teremos de evitar os encontros de amigos no apartamento de um deles em que, se formos contar os que estamos, somos muitos mais do que devíamos. Teremos de evitar todas as situações que, parecendo inofensivas, continuam a ser fonte de propagação do vírus e avolumar de sentença para os mais velhos. Porque não basta gostar de velhinhos quando os continuamos a condenar a este castigo sem culpa alguma.

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Dia mundial do idoso

Amanhã, dia 1 de outubro, celebra-se o Dia Mundial do Idoso, mas será que esta celebração faz sentido? Antes de mais é essencial compreender de que tipo de população estamos a falar.  Em Portugal, em 2019 registou-se um aumento de 3.8% no índice de envelhecimento referente ao período homólogo do ano anterior. Em que é que isto se reflete na prática? Reflete-se em 17,3% da população de idosos que em 2018 apresentavam um elevado risco de pobreza após as receberem transferências sociais. Reflete-se, também, em 15,8% de idosos com uma taxa de intensidade de pobreza elevada. Estes números significam que 17,3% de idosos, mesmo após receber as transferências sociais que supostamente os ajudariam a sair da pobreza, têm de escolher entre gastar o pouco que têm na farmácia ou no supermercado. Significa, também que, 17,3% da população idosa não tem a vivência digna que todos nós achamos que têm. Quando a sociedade, quer em publicidades quer nas mais variadas formas de arte, faz referência a idosos mostra sempre pessoas muito bem tratadas, com uma qualidade de vida invejável, e com um sorriso enorme no rosto. Porque ninguém quer pensar nos idosos que vivem sem condições mínimas, sem dinheiro para comer ou até mesmo- porque não menos importante- sem qualquer companhia nas longas horas do dia. E com certeza alguns poderão ainda pensar que ao menos ainda têm alguma capacidade de cuidar de si próprios independentemente da idade. Mas o que fazer quando cruzamos os dados do risco de pobreza com as percentagens de idosos dependentes? É que em 2019, segundo o INE, 34,5% dos idosos, dos quais 29,9% homens e 38,7% mulheres, apresentavam uma elevada taxa de dependência. Como podemos então celebrar conscientemente o dia mundial do idoso sem que soe a hipocrisia? Como podemos celebrar o percurso de vida, os seus feitos e a alegria que é ter connosco os mais velhos se 15.8% vive com uma elevada taxa de pobreza? A estas perguntas não existem respostas certas. Existem apenas atitudes concretas que podemos pôr em prática todos os dias. Esta celebração, diária e consistente, passa muito por estar atento ao vizinho mais velho que todos os dias nos dá bom dia à entrada do prédio. Passa muito por ajudar as instituições de apoio aos idosos das nossas comunidades, das mais variadas formas nomeadamente através do voluntariado, para que possam continuar a trabalhar no apoio aos mesmos. A Home24 trabalha todos os dias para garantir que os idosos tenham a melhor qualidade de vida possível nas suas casas. Porque respeitar os mais velhos e as suas histórias é, no final das contas, respeitarmo-nos a nós próprios.

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Férias

Agosto é, por excelência, o mês de férias. O mês em que uns aproveitam para procurar o sossego que o interior tem para oferecer e outros rumam a sul em busca do sol, da praia e das bolas de Berlim. Mas como é possível ir de férias descansado quando um dos nossos mais velhos fica? Como garantir que os cuidados são assegurados sem que nos sintamos culpados Em primeiro lugar é essencial reflectir sobre o processo de cuidados. O processo de cuidar de um familiar mais velho pode ser desgastante e fonte de stress. Como reflectido por Isabel Pereira e Abel Silva “O quotidiano da vida sofreu mudanças, que se traduziram no deixar de ter o que consideravam ser uma vida própria, dadas as repercussões nas diferentes Atividades de Vida Diária, em particular nas atividades como o Ocupar e Recrear, mas também em atividades como o Comer ou Dormir. A falta de tempo passou a ser uma preocupação constante, imprimindo ao quotidiano da vida novas exigências dando origem a novos significados. À escassez de tempo associou-se um novo ritmo, traduzido por “A Vida é uma agitação constante”, sentimento que também esteve presente nas expressões de “Ir e vir mais rápido”, ou “Não parar”. Surgiu o sentimento de perda de liberdade, por não poderem sair de casa, traduzindo uma das preocupações que também condicionara o quotidiano da vida.” (cit Pensar Enfermagem Vol. 16 N.º 1). Ora mesmo quando há um cuidador formal envolvido a família nunca fica desvinculada destes cuidados. O processo de acompanhar a velhice dos que amamos nunca deixa de ser um desafio constante às nossas expectativas e à ideia de que os mais velhos deveriam permanecer como sempre os conhecemos. Como encontrar o equilíbrio entre a responsabilidade do cuidar do outro e a necessidade de cuidar de nós mesmos? Em primeiro lugar é preciso racionalizar os cuidados. É claro que estamos emocionalmente envolvidos, mas é importante que nos perguntemos: “o meu mais velho tem alguém que garanta estes cuidados enquanto estou fora?”, “Há uma relação de confiança e empatia que me dê segurança para ir de férias?”. Se as respostas forem sim então o trabalho a fazer é alcançar a compreensão de que também nós, cuidadores, precisamos de descansar, de um espaço próprio com os nossos e de nos afastarmos um pouco para recuperar forças. É claro que podem surgir sentimentos de culpa e de egoísmo por não o levarmos connosco. Mas é essencial que possam existir momentos em que possamos ser cuidadores de nós próprios. Não sinta que está a tratar a pessoa como um fardo, mas lembre-se que está a cuidar de si para que possa ser um melhor cuidador. Se a resposta for negativa talvez seja necessário procurar ajuda. Nestes casos é importante não se depender apenas de uma pessoa, mas de uma equipa especializada que nos garanta que mesmo que a cuidadora tenha algum problema os cuidados ao nosso mais velho ficam assegurados. E é isso que a home24 se dispõe a fazer o ano inteiro. A aliviar este stress constante da gestão dos cuidados de quem amamos e a garantir que, com os melhores cuidados, o seu mais velho tem uma melhor qualidade de vida. Para ajudar com todas estas questões, e porque durante as férias muitos de nós aproveitam para pôr a leitura em dia, recomendo os seguintes livros: “Os meus pais estão a envelhecer” de Maria José Núncio e Carla Rocha. Este é um manual prático e muito útil de como gerir os cuidados dos mais velhos e como lidar com todas as questões práticas e emocionais do mesmo.  Um outro livro que é também muito útil é “Manual de Envelhecimento Ativo” de Oscar Ribeiro e Maria Constança Paúl que, como o próprio nome indica, é um guia prático de como alcançar o melhor processo de envelhecimento possível bem como conselhos úteis para a sua prática. Boas férias!

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Novas realidades

No texto passado vimos como é importante apoiar os nossos mais velhos neste regresso a uma “normalidade” diferente. A verdade é que todos nós estamos um pouco expectantes sobre o futuro e a forma como as relações se vão ajustar a estas novas regras. Nos últimos dias ouvi dois desabafos que refletem precisamente sobre as alterações das relações. O primeiro era qualquer coisa como: “a minha mãe achava que eu estava a usar máscara por ter medo do que ela me pudesse pegar. Ficou muito ressentida pela ausência de cumprimentos e de visitas dos netos”. Por outro lado, ouvi também uma senhora, dos seus 80 anos, dizer que o que lhe tem custado mais nestes últimos meses é precisamente este afastamento dos filhos e dos netos que agora a parecem forçar a um isolamento desprovido de afectos. A verdade é que o medo de sermos transmissores deste vírus alterou profundamente a forma como nos relacionamos. Se visitamos os nossos mais velhos vamos a medo, cheios de cuidados, mantendo sempre a distância e a pressa para que o contacto seja o mais breve e seguro possível. Mas surge aqui uma questão: e a segurança psicológica do nosso mais velho? Abraham Maslow desenvolveu nos anos 50 uma teoria humanista que pode ser resumida na famosa pirâmide das necessidades do ser humano.  O nosso foco será no terceiro patamar da pirâmide que são as necessidades sociais. As necessidades sociais são as necessidades do indivíduo manter relações humanas harmoniosas e de se integrar na sociedade. As necessidades de estima englobam o reconhecimento das capacidades do indivíduo (por ele e pelos outros) e a necessidade de respeito e orgulho. Por fim, as necessidades de auto-realização são as do aproveitamento de todo o potencial do indivíduo, necessidade de crescimento (ligada à necessidade de estima) e a necessidade que o indivíduo tem de fazer o que gosta e quer. Durante os últimos meses todos nós fizemos um esforço para que as primeiras necessidades da tabela de Maslow, sendo as primeiras fisiológicas e as segundas a segurança, fossem colmatadas às custas das necessidades sociais. Como poderemos então garantir que as três são mitigadas? Há muitas formas de demonstrar afetos mesmo à distância. Os netos podem fazer visitas mais demoradas nas quais conversam com os avós sobre os temas pelos quais tenham gostos comuns e os incentivem a manter actividades das quais gostem.  Se a avó sempre gostou de cozinhar porque não deixá-la preparar um almoço para a família, não descuidando os cuidados de higiene necessários, para comerem juntos ou até mesmo para levar?  Se o avô tem vontade de mostrar a coleção de selos ou contar as histórias do passado porque não lhe fazer companhia com ajuda da videochamada? Este equilíbrio entre as necessidades várias não é fácil e com certeza algumas coisas funcionarão melhor que outras. O essencial é que os nossos mais velhos se sintam úteis, importantes e valorizados. Para que nenhum deles sinta que a família não os quer como queria e que a incerteza destes tempos os sobrecarregue mais do que é necessário.

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Demência e Covid-19

No texto anterior reflectimos sobre a necessidade de desconfinamento dos mais velhos de forma responsável e sensata. Passado um mês podemos ver que, aos poucos, foram reabrindo espaços comerciais, espaços públicos e espaços culturais. No entanto no texto passado não abordamos a seguinte questão: Como é que promovemos um desconfinamento seguro ao nosso mais velho com demência? Em textos anteriores vimos a definição de demência, as suas características e as suas consequências. Se para qualquer pessoa o tempo de confinamento obrigatório foi difícil e a adaptação a novas rotinas foi um grande desafio para uma pessoa com demência este tempo foi ainda mais complicado. Não só pela alteração de rotinas, que vimos anteriormente ser muito importantes para a manutenção das capacidades ainda existentes, mas também pela ausência da visita de familiares abruptamente. A impossibilidade de sair para passear ou de manter   contacto com a comunidade podem ser muito violentas para uma pessoa com demência devido à dificuldade de compreender as razões da sua nova “reclusão”. Neste aspecto é essencial que haja, repetidamente o cuidado de explicar a existência do Covid-19 e as suas consequências. Lembre-se: fale com simplicidade e não sobrecarregue o seu mais velho com muita informação. Posto isto surge o desafio actual: como voltar a sair com o nosso mais velho com demência sem que isso constitua um perigo para o mesmo. Vou deixar algumas recomendações práticas, mas lembre-se: cada pessoa é única e tem especificidades que devem ser tidas em conta. Antes de sair deve certificar-se que o seu mais velho está confortável com a saída. Se o mesmo se mostrar muito relutante e desconfortável com a saída a rua pode levá-lo apenas até a porta de casa e aproveitar para conversar sobre o desconforto. Quando sair certifique-se de que o mesmo não toca em nada ou se tocar ajude-o a desinfetar as mãos e explique-lhe porquê. É importante manter uma vigilância cuidada durante o tempo em que está fora de casa. Mantenha os passeios curtos, mas garanta que são prazerosos para o seu mais velho. De nada vale sair se for à pressa, com muita restrição dos movimentos e se não for relaxante e prazeroso. Quando voltar a casa siga as regras da DGS (ainda que isto lhe tome tempo): Retire os sapatos à entrada de casa, ponha toda a roupa usada no passeio para lavar, se possível ajude o seu mais velho a tomar um banho. É claro que tudo isto requer tempo e paciência, no entanto lembre-se que é absolutamente essencial que este desconfinamento seja feito com calma e de forma relaxada. Lembre-se que o principal objectivo é manter a melhor qualidade de vida possível para aqueles de quem mais gostamos e isso inclui, naturalmente, regressar à vida normal sem que isso seja uma fonte de stress. A Home24 está também a fazer este trabalho com os seus clientes e estamos a disposição para o ajudar nesta fase de transição. A Alzheimer Portugal dispõe também neste link,
https://alzheimerportugal.org/pt/text-0-10-55-471-material-de-apoio-covid-19 ,algumas orientações para estes novos tempos que parecem ser tão desafiantes.

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Sensatez

No passado dia 30 de abril (sexta-feira) ficamos a saber que passaríamos de estado de emergência (o mais gravoso da nossa constituição) para um estado de calamidade pública que nos permitiria um alívio nas medidas restritivas e o início do desconfinamento. É claro que todos nós nos sentimos aliviados por este novo estado, no entanto é essencial manter uma atitude vigilante de proteção. Afinal de contas o Covid-19 não desapareceu e continua a ser um perigo real principalmente para os mais velhos ou doentes crónicos. E é com base nisto que importa que haja sensatez na gestão do desconfinamento dos mais velhos. É verdade que já não há uma obrigação de confinamento para os mais velhos apenas por terem mais de 70 anos de idade, no entanto é importante relembrar que esta doença é especialmente letal para os mesmos por muitas vezes terem outras comorbilidades associadas. Surge, portanto, a pergunta: Então o meu familiar mais velho não deve sair de casa?  Apesar de não haver o certo e o errado em relação ao desconfinamento dos mais velhos há duas questões a ter em conta. A primeira prende-se com o dever cívico de manter o confinamento. Quer isto dizer que apesar de não ser obrigatório manter o confinamento há um dever de continuar em casa por forma a prevenir o surgimento de novos casos. A segunda questão prende-se com o zelo pelo bem-estar físico e psicológico de todos nós e em especial dos mais velhos. É natural que passados quase dois meses de confinamento, com excepção para breves passeios higiénicos, haja necessidade de sair de casa para “espairecer” ou até mesmo para reencontrar a rede social informal (vizinhos, amigos no bairro, etc) com quem se perdeu o contacto. Há também a necessidade de recuperar a capacidade motora que, devido ao confinamento na habitação, se perdeu. A resistência não será a mesma e é importante voltar a caminhar e a readquirir essa mesma capacidade perdida. Poderemos perguntar como é que conciliamos estas duas questões: o dever cívico de confinamento vs a necessidade de desconfinamento. É neste momento que deve prevalecer a sensatez e a prudência. Podemos proceder a um desconfinamento gradual de maneira a que não incumpramos o dever cívico e a que seja garantido que o nosso mais velho tem as suas necessidades atendidas. Por exemplo: O pai gostava muito de manhã ir tomar o pequeno-almoço ao café, onde conversava com os vizinhos e amigos, e ir comprar o jornal à papelaria da esquina onde também já o conheciam tão bem. E enquanto o fazia acabava por caminhar bastante. Como é que podemos regressar a esta realidade sem o pôr em perigo? Podemos sempre simular o trajecto e ir com ele comprar o jornal à papelaria depois de tomar o pequeno almoço em casa. Isto é claro com as devidas protecções e distâncias sociais. Este é um dos cenários, mas também é possível que a pergunta seja a seguinte: O meu familiar mais velho não quer sair de casa porque tem medo. O que devo fazer?   Em primeiro lugar é importante ser compreensivo com o medo que o mesmo está a sentir. Esta é uma questão que deve ser dialogada e nunca forçada. É claro que há questões importantes como as que referi a pouco, mas a vontade do mais velho deve ser respeitada e dialogada até que o mesmo esteja pronto para sair. Há alguns exercícios que podem ajudar a recuperar alguma mobilidade dentro de casa e que ajudam a colmatar a falta de caminhadas no exterior. O mais importante nestas questões é sempre manter a calma, a sensatez e o respeito pelo outro.

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Ficar em casa

Desde dezembro que ouvimos rumores de um novo vírus na china que, inicialmente, afectou apenas 50 pessoas. Para sermos verdadeiros a realidade é que nós, europeus, não ligamos muita importância às notícias que nos chegavam do oriente. Com a grande intensidade de tráfego aéreo, em negócios ou em lazer, este novo vírus chegou, no final do mês de janeiro, a território europeu. A partir dai a OMS declarou, a 11 de março, o Covid-19 uma pandemia. Os grupos de maior risco são os idosos e as pessoas com doenças crónicas e por isso há regras mais restritivas para estes grupos sendo as mesmas descritas no decreto n.º 2-A/2020 resultante da presidência de conselho de ministros. O artigo 4º diz o seguinte: “Ficam sujeitos a um dever especial de proteção: a) Os maiores de 70 anos; (…)2 — Os cidadãos abrangidos pelo número anterior só podem circular em espaços e vias públicas, ou em espaços e vias privadas equiparadas a vias públicas, para algum dos seguintes propósitos: a) Aquisição de bens e serviços; b) Deslocações por motivos de saúde, designadamente para efeitos de obtenção de cuidados de saúde; N.º 57 20 de março de 2020 Pág. 11-(7) Diário da República, 1.ª série c) Deslocação a estações e postos de correio, agências bancárias e agências de corretores de seguros ou seguradoras; d) Deslocações de curta duração para efeitos de atividade física, sendo proibido o exercício de atividade física coletiva; e) Deslocações de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia; f) Outras atividades de natureza análoga ou por outros motivos de força maior ou necessidade impreterível, desde que devidamente justificados”. É neste artigo que reside a maior dificuldade de todas: manter os nossos mais velhos em casa. Como o fruto proibido é sempre o mais apetecido agora é o momento em que a grande maioria dos mais velhos quer muito ir passear e andar na rua. No entanto esta é a altura de sermos racionais e de usarmos o bom senso. Caso a residência onde more o seu mais velho tenha jardim podem usar o jardim para fazer uma pequena caminhada e apanhar ar. Se morar num apartamento é possível, segundo o decreto, dar um pequeno passeio. No entanto por uma questão de prevenção o melhor é pensar em actividades que se possam fazer dentro de casa e que estimulem cognitivamente os mais velhos. É imperativo que evitem as notícias todo o dia porque só contribui para o desenvolvimento de ansiedade e nervosismo numa situação já de si delicada. Mantenha o contacto com netos e familiares através da tecnologia disponível e oiça com atenção os medos e os desabafos que possam surgir. É muito importante que não se dê espaço ao surgimento de sentimentos de solidão. O foco principal durante todo este tempo, que ninguém sabe quanto será, é manter a esperança de que tudo isto vai passar. A esperança de que passando esta tormenta daremos mais valor ao estarmos presentes e nos podermos abraçar. A esperança de que continuaremos esta onda de solidariedade e cuidado com o outro porque só assim poderemos ser uma sociedade mais feliz. Deixarei alguns links úteis para lidarmos melhor com esta situação. No próximo texto espero que seja possível escrever sobre o fim de tudo isto até lá fique em casa! 

https://dre.pt/home/-/dre/130473161/details/maximized

http://covid19.min-saude.pt/

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Com quem podemos contar?

No texto passado vimos a importância de a cada início de ciclo, definir novos objectivos. Ficou por responder a quem podem recorrer os mais velhos na prossecução destes objectivos. No fundo o que se pergunta é “com quem podem contar? “. Para responder a esta questão importa olhar para a teoria da vinculação. A vinculação diz respeito a uma ligação que, uma vez estabelecida, tende a ser duradoura assumindo um tempo e espaço próprios (Moreira,2004). Já segundo Bowlby (1990), é vista como algo que possibilita o desenvolvimento da capacidade de estar só; em que o vínculo afectivo bem estruturado representa o alicerce para um desenvolvimento saudável da personalidade. Bee (1996) define a vinculação como variação do vínculo afectivo, onde há a necessidade da presença do outro e uma maior segurança na presença do mesmo. Neste sentido o outro é uma base segura a partir da qual o indivíduo explora o mundo e experimenta novas relações. Bradley e Cafferty (2001, citado por Cookman, 2005) referiram que a vinculação é relevante no processo de envelhecimento em três grandes áreas: (1) prestação de cuidados em caso de doença crónica, (2) luto e lidar com a perda, e (3) adaptação ao envelhecimento e bem-estar na velhice. Acresce que, a consciência de que a vinculação é tão relevante na velhice como noutras fases da vida ajuda a combater estereótipos relacionados com os idosos bem como a subvalorização de certos acontecimentos.  Ocorre, não raras vezes, que idosos cuja saúde está em declínio podem contar com a ajuda contínua de terceiros, como médicos, enfermeiros ou cuidadores formais. Em tal situação, os idosos podem desenvolver relações de vinculação com os profissionais referidos que os ajudam a satisfazer as suas necessidades de conforto e apoio emocional (Cicirelli, 2010). Podem, também, e com o evoluir do tempo, emergir novas relações de vinculação com filhos e netos pelo que, embora o número de relações de vinculação possa não diminuir com a idade, podem surgir alterações no tipo de pessoas a quem o idoso se vincula (Nicole, Doherty & Feeney, 2004, citado por Assche et al., 2013). O conceito de qualidade de vida está relacionado à auto estima e ao bem-estar pessoal e abrange uma série de aspectos como a capacidade funcional, o nível socioeconômico, o estado emocional, a interação social, a atividade intelectual, o autocuidado, o suporte familiar, o próprio estado de saúde, os valores culturais, éticos e a religiosidade , o estilo de vida, a satisfação com o emprego e/ou com atividades diárias e o ambiente em que se vive. O conceito de qualidade de vida, portanto, varia de autor para autor e, além disso, é um conceito subjetivo dependente do nível sociocultural, da faixa etária e das aspirações pessoais do indivíduo. Conclui-se, desta forma, que a vinculação nos idosos é relevante para a sua qualidade de vida (psicológica, mental e social) e que as diferenças individuais, no que concerne aos estilos de vinculação, estão relacionadas com reações distintas aos desafios presentes ao longo do desenvolvimento. Apesar destas noções e da ênfase original de Bowlby sobre a vinculação como um processo de vida, tem-se atribuído pouca atenção à vinculação na velhice, comparativamente a outras etapas do ciclo vital.  Para além dos vínculos que cada um vai formando ao longo do seu ciclo de vida há outra variável muito importante à equação pessoal que permite alcançar a tão desejada qualidade de vida. Estamos a falar, claro está, da personalidade. No próximo texto veremos quais são e que impacto têm no ciclo vital de cada um.

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(Re)Começos

A cada início de ano há uma sensação de oportunidade que nos invade. Ainda que a diferença relativa ao ano anterior seja apenas de alguns dias, sentimos que temos uma nova oportunidade de recomeço. De corrigir o que foi menos positivo, aceitar o que não se pode corrigir e fazer o que ainda queremos fazer. Falamos de objectivos, metas e sonhos. Como se magicamente um mundo de possibilidades se abrisse para nós. Um novo ano é como respirar fundo para continuar o caminho. Mas como é que ao fim de tantos “novos anos” podemos continuar a definir objectivos? De que forma é que, como família, podemos encorajar os mais velhos a manter esta vontade de alcançar novas metas?  Em primeiro lugar é necessário utilizar a ferramenta essencial às relações humanas (de que já falamos tantas vezes): a comunicação. Comunicar vem do latim communicare que significa tornar comum, partilhar, conferenciar.  Este é o primeiro passo: escutar as ambições do outro, os medos, e os sonhos, independentemente da idade de cada um. Este exercício de escuta pode ser feito de forma mais ou menos intencional. Um bom momento para isto é a refeição, em que a família se reúne, que é um momento privilegiado para partilha. Hollywood em 2007 lançou um filme chamado “The Bucket List” que retratava a história de vida de dois homens que, estando internados num hospital em fase terminal, decidiram partir e cumprir todos os objectivos/sonhos que ainda tinham por realizar. Para isso escreveram aquilo que dá nome ao filme: uma bucket list. Em português podemos chamar-lhe de lista de desejos. Não precisam de ser desejos megalómanos podem ser desejos simples como experimentar aquele restaurante ou andar de avião. A principal ideia é que esta lista seja feita em conjunto e que seja realista. Mas porque é que é tão importante fazer este exercício? Pascal escreveu: “Nada é tão insuportável para o homem como estar completamente em repouso, sem paixões, sem negócios, sem diversão, sem esforço. Ele sente o seu nada, o seu desespero, a sua insuficiência, a sua fraqueza, o seu vazio”. (tradução livre de Pascal, the pensees, 1660/1950, p.57). Também Robert. A. Emmons, um psicólogo americano, referiu que “a consecução de objectivos é um marco importante para a experiência de bem-estar. Quando questionados sobre o que contribui para uma vida feliz plena e significativa as pessoas referem, espontaneamente, os seus objectivos, desejos e sonhos para a vida” (tradução livre). Percebendo, portanto, a importância indiscutível da manutenção do hábito de estabelecer novas metas a cada ano fica a questão essencial: de quem é a tarefa de ajudar os mais velhos a fazer esta reflexão? A quem podem recorrer para a planificação do novo ano que inicia? Será apenas ao agregado familiar ou o resto da família também pode ser envolvida? Falaremos disto no próximo texto… até lá!       

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