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Mens sana in corpore sano

No último texto terminei com uma nota de esperança. Esperança de dias melhores, esperança numa melhoria no panorama geral que fosse garante de dias mais livres, mas não aconteceu. E não só mantivemos o dever geral de confinamento como vimos os números aumentarem como uma onda que promete derrubar-nos. Números de infetados e de mortos. Números tão constantes e tão avassaladores que hoje já não sabemos distinguir os números de ontem dos de anteontem. Números que são pessoas, pais, filhos, maridos/esposas, amigos, vizinhos. Pessoas que deixam, como sempre deixam aqueles que vão antes de nós, um sabor amargo na boca, a sensação de que podíamos ter feito mais e uma saudade tão tipicamente portuguesa. Ensinaram-nos, os mais velhos, que depois da tempestade vem sempre a bonança. Sabemos também que, quando muito perto, perdemos a capacidade de ver o todo. E é esta incapacidade paralisante que devemos evitar porque sem horizonte é impossível navegar. E esta sensação de perda de horizonte é muitas vezes manifestada através de comportamentos reveladores de transtorno de ansiedade. A ansiedade é um termo geral para vários distúrbios que causam nervosismo, medo, apreensão e preocupação. Os principais sintomas são: constante tensão ou nervosismo, sensação de que algo mau vai acontecer, problemas de concentração, medo constante, descontrolo de pensamentos nomeadamente dificuldade em esquecer o causador de tensão, preocupação exagerada, problemas de sono, irritabilidade e agitação motora. Naturalmente, cada um revela estes sintomas de maneira própria.  O Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra realizou um estudo sobre o impacto do confinamento da qualidade de vida dos portugueses. Os resultados mostram que os respondentes que se encontravam em confinamento reportaram níveis elevados de ansiedade, uma menor qualidade de vida relacionada com a saúde (QVRS) e que pessoas com elevados níveis de ansiedade tenderam a ter menor QVRS. As mulheres e os idosos reportaram níveis mais altos de ansiedade e pior QVRS. Os níveis mais altos de ansiedade nos idosos podem ser explicados pelo fato de pertencerem ao grupo de risco da pandemia de COVID-19 (cit. Lara Noronha Ferreira). Ora a questão que se impõe é: com esta realidade que estamos a viver como é que evito o desenvolvimento da ansiedade no meu mais velho? E não sendo já possível evitar como é que reajo quando identificar sinais de ansiedade por forma a melhorar a sua qualidade de vida? Em primeiro lugar é absolutamente essencial uma abordagem cuidadosa pois, muitas vezes, a pessoa em questão não tem consciência do estado em que se encontra. É importante, através de um diálogo adequado e respeitoso, desconstruir os comportamentos como a preocupação ou o medo por forma a perceber se são justificáveis devido à situação em que nos encontramos ou se já estão presentes a um nível paralisante. O seu mais velho não consegue ver mais nada na televisão a não ser noticias? Não consegue manter um diálogo sobre outros temas? Verbaliza ter sintomas associados à ansiedade como insónias, tremores, sudorese excessiva, palpitações cardíacas ou outros?  O mais indicado, se não conseguir através de uma acção constante de pacificação, diálogo e manobras de distração será procurar ajuda junto de um profissional de saúde mental. Lembrando sempre que não há mal nenhum recorrer a um profissional quando se precisa de ajuda e que a saúde mental é tão importante como a saúde física (não diria a alguém com uma dor paralisante na perna que não vale a pena ir ao médico que aquilo há-de passar, pois não?). Nestes tempos, em que é ainda incerto quanto mais tempo demorará até voltarmos a poder circular livremente, é absolutamente essencial cuidar também da saúde mental dos mais velhos. Manter uma conversação com um grau de complexidade adequado à pessoa, promover interacção social (a possível e segura dentro do quadro em que vivemos) e a participação activa nas tomadas de decisões- ainda que irrelevantes- são atitudes diferenciadoras do que será a prevenção da perca de capacidades cognitivas dos mais velhos. Porque as paredes não falam, a televisão não lhes responde e a interacção social e a capacidade de cognição também é uma actividade que precisa de prática para não se perder. Lembre-se: cuidar da saúde mental é cuidar da pessoa que ama porque, também os mais velhos nos ensinaram , “mente sã, corpo são”.

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Ano novo vida nova

 Na passagem do ano é muito comum fazerem-se as tradicionais promessas para o novo ano. Muitas vezes escrevemos num papel os nossos objectivos como se, por magia, ao estarem escritos os mesmos fossem ser alcançados. 2020 foi um ano atipicamente desafiador para todos. Foi um ano de clausura e afastamento dos familiares e amigos. Os sorrisos no rosto dos nossos mais queridos foram substituídos por máscaras que nos escondiam as suas expressões. O toque carinhosamente apaziguador foi substituído por distância cautelosamente guardada. Os cheiros caseiros, tão familiares, foram substituídos pelo cheiro a desinfetantes e a álcool. Os encontros felizes e amistosos foram substituídos pelas vídeo chamadas- muitas vezes confusas e com cortes (que a tecnologia as vezes é uma trapalhada). O Covid-19, designação que todos conhecemos e de que já não podemos ouvir falar passou a ser uma ameaça constante e modeladora daquilo que são as nossas práticas e vivências. Acontece que dia 26 do mês de Dezembro chegou a tão esperada vacina ao nosso país. Aquela que promete devolver alguma normalidade aos nossos dias que no último ano se tornaram tão obsessivos com desinfeção e distanciamento. Mas ainda estamos muito longe de voltar ao dia-a-dia normal. Acontece que quando todos nos enchíamos de esperança com a campanha de vacinação, ainda que se adivinhe demorada, surge uma nova estirpe do vírus, no Reino Unido, que é muito mais transmissível ainda que igualmente perigosa. Surge, portanto, a necessidade de voltarmos a reconfinar, voltar a reservar as saídas à rua para aquilo que é absolutamente essencial, proteger os mais velhos e os grupos de risco. Acreditando que, neste novo ano, seremos capazes de manter o contacto de forma mais segura e carinhosa ainda que à distância. Vários estudos, nomeadamente o de Samantha K Brooks, advogam que é essencial que se façam os possíveis para evitar os efeitos já identificados do confinamento prolongado tais como: stress pós-traumático, frustração e aborrecimento, falta de mantimentos, estigma etário e informação inadequada.  Ora os mais velhos estão em confinamento há largos meses e os efeitos desse mesmo confinamento estão ainda para serem vistos. É absolutamente essencial que, neste novo ano, tenhamos a capacidade de (com bom senso) ajudar os nossos mais velhos a encontrar um sentido para os dias que vão vivendo dentro do espaço em que estão confinados e isto pode ser feito através da realização de actividades lúdicas (pintura, jogos vários, leitura), contactos com outros amigos/familiares idosos que estejam igualmente em confinamento e até mesmo idas ao cinema/teatro dentro de casa. O importante, nesta fase de incerteza é manter o bom senso e a esperança de que, algures no tempo, vamos conseguir voltar às nossas vidas.

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Ser idoso em plena pandemia

Este foi o mês das celebrações do dia mundial do idoso. O mês em que, por excelência as várias instituições tentam, através das formas mais criativas celebrar a vida e repensar o processo de envelhecimento dos seus idosos. No entanto este ano terá sido, com toda a certeza, bem diferente. Este ano, estes idosos viram e continuam a ver as suas vidas em pausa até haver ordem em contrário- e que bem que a têm cumprido. Importa saber realmente de quantas pessoas estamos a falar e em que situação de vida se encontram. Segundo o INE, em 2019, existiam 2.280.424 pessoas com mais de 65 anos. Já segundo o relatório de 2018 da Carta Social existiam um total de 274 000 vagas em respostas socias para idosos (Serviço de Apoio Domiciliário [SAD], Centro de Dia e Estruturas Residenciais Para Idosos [ERPI]) sendo que destas existiam 100 000 vagas para ERPI. Diz-nos, também, este relatório que, ainda no ano de 2018, as vagas para ERPI apresentavam uma taxa de ocupação de 98%. Acerca do corrente ano não temos ainda dados, no entanto sabemos, como disposto no texto anterior, que o índice de envelhecimento tem crescido de ano para ano e, por isso, o número de pessoas idosas a fazer usos das vagas disponíveis também terá, expectavelmente, aumentado. Ora, apesar de parecer que foi ainda ontem, as restrições impostas aos nossos idosos, como medida de combate a propagação do Sars-Cov-2, já decorrem há praticamente 9 meses. Falamos de restrições de liberdade consideráveis nomeadamente a restrição da liberdade de sair do lar, de receber visitas (excepto o SAD que se antes do Covid já era consideravelmente insuficiente para suprir as necessidades dos idosos o que será agora…), de estar com família e amigos e, no fundo, da liberdade de dispor do seu tempo vital- seja ele muito ou pouco- e de aproveitar os seus dias da forma que lhes aprouver.  E que consequências é que este tempo de “reclusão” terá sobre os 2.280.424 idosos portugueses? Como podemos ajudar a aliviar os efeitos tão profundos da solidão, do desalento e da aparente situação de abandono ainda que sob intenção de os proteger e salvaguardar? Bem a resposta imediata é óbvia: se realmente quisermos ajudar estes idosos em reclusão forçada teremos de ficar em casa sempre que for possível. Teremos de evitar os encontros de amigos no apartamento de um deles em que, se formos contar os que estamos, somos muitos mais do que devíamos. Teremos de evitar todas as situações que, parecendo inofensivas, continuam a ser fonte de propagação do vírus e avolumar de sentença para os mais velhos. Porque não basta gostar de velhinhos quando os continuamos a condenar a este castigo sem culpa alguma.

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Dia mundial do idoso

Amanhã, dia 1 de outubro, celebra-se o Dia Mundial do Idoso, mas será que esta celebração faz sentido? Antes de mais é essencial compreender de que tipo de população estamos a falar.  Em Portugal, em 2019 registou-se um aumento de 3.8% no índice de envelhecimento referente ao período homólogo do ano anterior. Em que é que isto se reflete na prática? Reflete-se em 17,3% da população de idosos que em 2018 apresentavam um elevado risco de pobreza após as receberem transferências sociais. Reflete-se, também, em 15,8% de idosos com uma taxa de intensidade de pobreza elevada. Estes números significam que 17,3% de idosos, mesmo após receber as transferências sociais que supostamente os ajudariam a sair da pobreza, têm de escolher entre gastar o pouco que têm na farmácia ou no supermercado. Significa, também que, 17,3% da população idosa não tem a vivência digna que todos nós achamos que têm. Quando a sociedade, quer em publicidades quer nas mais variadas formas de arte, faz referência a idosos mostra sempre pessoas muito bem tratadas, com uma qualidade de vida invejável, e com um sorriso enorme no rosto. Porque ninguém quer pensar nos idosos que vivem sem condições mínimas, sem dinheiro para comer ou até mesmo- porque não menos importante- sem qualquer companhia nas longas horas do dia. E com certeza alguns poderão ainda pensar que ao menos ainda têm alguma capacidade de cuidar de si próprios independentemente da idade. Mas o que fazer quando cruzamos os dados do risco de pobreza com as percentagens de idosos dependentes? É que em 2019, segundo o INE, 34,5% dos idosos, dos quais 29,9% homens e 38,7% mulheres, apresentavam uma elevada taxa de dependência. Como podemos então celebrar conscientemente o dia mundial do idoso sem que soe a hipocrisia? Como podemos celebrar o percurso de vida, os seus feitos e a alegria que é ter connosco os mais velhos se 15.8% vive com uma elevada taxa de pobreza? A estas perguntas não existem respostas certas. Existem apenas atitudes concretas que podemos pôr em prática todos os dias. Esta celebração, diária e consistente, passa muito por estar atento ao vizinho mais velho que todos os dias nos dá bom dia à entrada do prédio. Passa muito por ajudar as instituições de apoio aos idosos das nossas comunidades, das mais variadas formas nomeadamente através do voluntariado, para que possam continuar a trabalhar no apoio aos mesmos. A Home24 trabalha todos os dias para garantir que os idosos tenham a melhor qualidade de vida possível nas suas casas. Porque respeitar os mais velhos e as suas histórias é, no final das contas, respeitarmo-nos a nós próprios.

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Férias

Agosto é, por excelência, o mês de férias. O mês em que uns aproveitam para procurar o sossego que o interior tem para oferecer e outros rumam a sul em busca do sol, da praia e das bolas de Berlim. Mas como é possível ir de férias descansado quando um dos nossos mais velhos fica? Como garantir que os cuidados são assegurados sem que nos sintamos culpados Em primeiro lugar é essencial reflectir sobre o processo de cuidados. O processo de cuidar de um familiar mais velho pode ser desgastante e fonte de stress. Como reflectido por Isabel Pereira e Abel Silva “O quotidiano da vida sofreu mudanças, que se traduziram no deixar de ter o que consideravam ser uma vida própria, dadas as repercussões nas diferentes Atividades de Vida Diária, em particular nas atividades como o Ocupar e Recrear, mas também em atividades como o Comer ou Dormir. A falta de tempo passou a ser uma preocupação constante, imprimindo ao quotidiano da vida novas exigências dando origem a novos significados. À escassez de tempo associou-se um novo ritmo, traduzido por “A Vida é uma agitação constante”, sentimento que também esteve presente nas expressões de “Ir e vir mais rápido”, ou “Não parar”. Surgiu o sentimento de perda de liberdade, por não poderem sair de casa, traduzindo uma das preocupações que também condicionara o quotidiano da vida.” (cit Pensar Enfermagem Vol. 16 N.º 1). Ora mesmo quando há um cuidador formal envolvido a família nunca fica desvinculada destes cuidados. O processo de acompanhar a velhice dos que amamos nunca deixa de ser um desafio constante às nossas expectativas e à ideia de que os mais velhos deveriam permanecer como sempre os conhecemos. Como encontrar o equilíbrio entre a responsabilidade do cuidar do outro e a necessidade de cuidar de nós mesmos? Em primeiro lugar é preciso racionalizar os cuidados. É claro que estamos emocionalmente envolvidos, mas é importante que nos perguntemos: “o meu mais velho tem alguém que garanta estes cuidados enquanto estou fora?”, “Há uma relação de confiança e empatia que me dê segurança para ir de férias?”. Se as respostas forem sim então o trabalho a fazer é alcançar a compreensão de que também nós, cuidadores, precisamos de descansar, de um espaço próprio com os nossos e de nos afastarmos um pouco para recuperar forças. É claro que podem surgir sentimentos de culpa e de egoísmo por não o levarmos connosco. Mas é essencial que possam existir momentos em que possamos ser cuidadores de nós próprios. Não sinta que está a tratar a pessoa como um fardo, mas lembre-se que está a cuidar de si para que possa ser um melhor cuidador. Se a resposta for negativa talvez seja necessário procurar ajuda. Nestes casos é importante não se depender apenas de uma pessoa, mas de uma equipa especializada que nos garanta que mesmo que a cuidadora tenha algum problema os cuidados ao nosso mais velho ficam assegurados. E é isso que a home24 se dispõe a fazer o ano inteiro. A aliviar este stress constante da gestão dos cuidados de quem amamos e a garantir que, com os melhores cuidados, o seu mais velho tem uma melhor qualidade de vida. Para ajudar com todas estas questões, e porque durante as férias muitos de nós aproveitam para pôr a leitura em dia, recomendo os seguintes livros: “Os meus pais estão a envelhecer” de Maria José Núncio e Carla Rocha. Este é um manual prático e muito útil de como gerir os cuidados dos mais velhos e como lidar com todas as questões práticas e emocionais do mesmo.  Um outro livro que é também muito útil é “Manual de Envelhecimento Ativo” de Oscar Ribeiro e Maria Constança Paúl que, como o próprio nome indica, é um guia prático de como alcançar o melhor processo de envelhecimento possível bem como conselhos úteis para a sua prática. Boas férias!

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Novas realidades

No texto passado vimos como é importante apoiar os nossos mais velhos neste regresso a uma “normalidade” diferente. A verdade é que todos nós estamos um pouco expectantes sobre o futuro e a forma como as relações se vão ajustar a estas novas regras. Nos últimos dias ouvi dois desabafos que refletem precisamente sobre as alterações das relações. O primeiro era qualquer coisa como: “a minha mãe achava que eu estava a usar máscara por ter medo do que ela me pudesse pegar. Ficou muito ressentida pela ausência de cumprimentos e de visitas dos netos”. Por outro lado, ouvi também uma senhora, dos seus 80 anos, dizer que o que lhe tem custado mais nestes últimos meses é precisamente este afastamento dos filhos e dos netos que agora a parecem forçar a um isolamento desprovido de afectos. A verdade é que o medo de sermos transmissores deste vírus alterou profundamente a forma como nos relacionamos. Se visitamos os nossos mais velhos vamos a medo, cheios de cuidados, mantendo sempre a distância e a pressa para que o contacto seja o mais breve e seguro possível. Mas surge aqui uma questão: e a segurança psicológica do nosso mais velho? Abraham Maslow desenvolveu nos anos 50 uma teoria humanista que pode ser resumida na famosa pirâmide das necessidades do ser humano.  O nosso foco será no terceiro patamar da pirâmide que são as necessidades sociais. As necessidades sociais são as necessidades do indivíduo manter relações humanas harmoniosas e de se integrar na sociedade. As necessidades de estima englobam o reconhecimento das capacidades do indivíduo (por ele e pelos outros) e a necessidade de respeito e orgulho. Por fim, as necessidades de auto-realização são as do aproveitamento de todo o potencial do indivíduo, necessidade de crescimento (ligada à necessidade de estima) e a necessidade que o indivíduo tem de fazer o que gosta e quer. Durante os últimos meses todos nós fizemos um esforço para que as primeiras necessidades da tabela de Maslow, sendo as primeiras fisiológicas e as segundas a segurança, fossem colmatadas às custas das necessidades sociais. Como poderemos então garantir que as três são mitigadas? Há muitas formas de demonstrar afetos mesmo à distância. Os netos podem fazer visitas mais demoradas nas quais conversam com os avós sobre os temas pelos quais tenham gostos comuns e os incentivem a manter actividades das quais gostem.  Se a avó sempre gostou de cozinhar porque não deixá-la preparar um almoço para a família, não descuidando os cuidados de higiene necessários, para comerem juntos ou até mesmo para levar?  Se o avô tem vontade de mostrar a coleção de selos ou contar as histórias do passado porque não lhe fazer companhia com ajuda da videochamada? Este equilíbrio entre as necessidades várias não é fácil e com certeza algumas coisas funcionarão melhor que outras. O essencial é que os nossos mais velhos se sintam úteis, importantes e valorizados. Para que nenhum deles sinta que a família não os quer como queria e que a incerteza destes tempos os sobrecarregue mais do que é necessário.

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Demência e Covid-19

No texto anterior reflectimos sobre a necessidade de desconfinamento dos mais velhos de forma responsável e sensata. Passado um mês podemos ver que, aos poucos, foram reabrindo espaços comerciais, espaços públicos e espaços culturais. No entanto no texto passado não abordamos a seguinte questão: Como é que promovemos um desconfinamento seguro ao nosso mais velho com demência? Em textos anteriores vimos a definição de demência, as suas características e as suas consequências. Se para qualquer pessoa o tempo de confinamento obrigatório foi difícil e a adaptação a novas rotinas foi um grande desafio para uma pessoa com demência este tempo foi ainda mais complicado. Não só pela alteração de rotinas, que vimos anteriormente ser muito importantes para a manutenção das capacidades ainda existentes, mas também pela ausência da visita de familiares abruptamente. A impossibilidade de sair para passear ou de manter   contacto com a comunidade podem ser muito violentas para uma pessoa com demência devido à dificuldade de compreender as razões da sua nova “reclusão”. Neste aspecto é essencial que haja, repetidamente o cuidado de explicar a existência do Covid-19 e as suas consequências. Lembre-se: fale com simplicidade e não sobrecarregue o seu mais velho com muita informação. Posto isto surge o desafio actual: como voltar a sair com o nosso mais velho com demência sem que isso constitua um perigo para o mesmo. Vou deixar algumas recomendações práticas, mas lembre-se: cada pessoa é única e tem especificidades que devem ser tidas em conta. Antes de sair deve certificar-se que o seu mais velho está confortável com a saída. Se o mesmo se mostrar muito relutante e desconfortável com a saída a rua pode levá-lo apenas até a porta de casa e aproveitar para conversar sobre o desconforto. Quando sair certifique-se de que o mesmo não toca em nada ou se tocar ajude-o a desinfetar as mãos e explique-lhe porquê. É importante manter uma vigilância cuidada durante o tempo em que está fora de casa. Mantenha os passeios curtos, mas garanta que são prazerosos para o seu mais velho. De nada vale sair se for à pressa, com muita restrição dos movimentos e se não for relaxante e prazeroso. Quando voltar a casa siga as regras da DGS (ainda que isto lhe tome tempo): Retire os sapatos à entrada de casa, ponha toda a roupa usada no passeio para lavar, se possível ajude o seu mais velho a tomar um banho. É claro que tudo isto requer tempo e paciência, no entanto lembre-se que é absolutamente essencial que este desconfinamento seja feito com calma e de forma relaxada. Lembre-se que o principal objectivo é manter a melhor qualidade de vida possível para aqueles de quem mais gostamos e isso inclui, naturalmente, regressar à vida normal sem que isso seja uma fonte de stress. A Home24 está também a fazer este trabalho com os seus clientes e estamos a disposição para o ajudar nesta fase de transição. A Alzheimer Portugal dispõe também neste link,
https://alzheimerportugal.org/pt/text-0-10-55-471-material-de-apoio-covid-19 ,algumas orientações para estes novos tempos que parecem ser tão desafiantes.

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Sensatez

No passado dia 30 de abril (sexta-feira) ficamos a saber que passaríamos de estado de emergência (o mais gravoso da nossa constituição) para um estado de calamidade pública que nos permitiria um alívio nas medidas restritivas e o início do desconfinamento. É claro que todos nós nos sentimos aliviados por este novo estado, no entanto é essencial manter uma atitude vigilante de proteção. Afinal de contas o Covid-19 não desapareceu e continua a ser um perigo real principalmente para os mais velhos ou doentes crónicos. E é com base nisto que importa que haja sensatez na gestão do desconfinamento dos mais velhos. É verdade que já não há uma obrigação de confinamento para os mais velhos apenas por terem mais de 70 anos de idade, no entanto é importante relembrar que esta doença é especialmente letal para os mesmos por muitas vezes terem outras comorbilidades associadas. Surge, portanto, a pergunta: Então o meu familiar mais velho não deve sair de casa?  Apesar de não haver o certo e o errado em relação ao desconfinamento dos mais velhos há duas questões a ter em conta. A primeira prende-se com o dever cívico de manter o confinamento. Quer isto dizer que apesar de não ser obrigatório manter o confinamento há um dever de continuar em casa por forma a prevenir o surgimento de novos casos. A segunda questão prende-se com o zelo pelo bem-estar físico e psicológico de todos nós e em especial dos mais velhos. É natural que passados quase dois meses de confinamento, com excepção para breves passeios higiénicos, haja necessidade de sair de casa para “espairecer” ou até mesmo para reencontrar a rede social informal (vizinhos, amigos no bairro, etc) com quem se perdeu o contacto. Há também a necessidade de recuperar a capacidade motora que, devido ao confinamento na habitação, se perdeu. A resistência não será a mesma e é importante voltar a caminhar e a readquirir essa mesma capacidade perdida. Poderemos perguntar como é que conciliamos estas duas questões: o dever cívico de confinamento vs a necessidade de desconfinamento. É neste momento que deve prevalecer a sensatez e a prudência. Podemos proceder a um desconfinamento gradual de maneira a que não incumpramos o dever cívico e a que seja garantido que o nosso mais velho tem as suas necessidades atendidas. Por exemplo: O pai gostava muito de manhã ir tomar o pequeno-almoço ao café, onde conversava com os vizinhos e amigos, e ir comprar o jornal à papelaria da esquina onde também já o conheciam tão bem. E enquanto o fazia acabava por caminhar bastante. Como é que podemos regressar a esta realidade sem o pôr em perigo? Podemos sempre simular o trajecto e ir com ele comprar o jornal à papelaria depois de tomar o pequeno almoço em casa. Isto é claro com as devidas protecções e distâncias sociais. Este é um dos cenários, mas também é possível que a pergunta seja a seguinte: O meu familiar mais velho não quer sair de casa porque tem medo. O que devo fazer?   Em primeiro lugar é importante ser compreensivo com o medo que o mesmo está a sentir. Esta é uma questão que deve ser dialogada e nunca forçada. É claro que há questões importantes como as que referi a pouco, mas a vontade do mais velho deve ser respeitada e dialogada até que o mesmo esteja pronto para sair. Há alguns exercícios que podem ajudar a recuperar alguma mobilidade dentro de casa e que ajudam a colmatar a falta de caminhadas no exterior. O mais importante nestas questões é sempre manter a calma, a sensatez e o respeito pelo outro.

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Ficar em casa

Desde dezembro que ouvimos rumores de um novo vírus na china que, inicialmente, afectou apenas 50 pessoas. Para sermos verdadeiros a realidade é que nós, europeus, não ligamos muita importância às notícias que nos chegavam do oriente. Com a grande intensidade de tráfego aéreo, em negócios ou em lazer, este novo vírus chegou, no final do mês de janeiro, a território europeu. A partir dai a OMS declarou, a 11 de março, o Covid-19 uma pandemia. Os grupos de maior risco são os idosos e as pessoas com doenças crónicas e por isso há regras mais restritivas para estes grupos sendo as mesmas descritas no decreto n.º 2-A/2020 resultante da presidência de conselho de ministros. O artigo 4º diz o seguinte: “Ficam sujeitos a um dever especial de proteção: a) Os maiores de 70 anos; (…)2 — Os cidadãos abrangidos pelo número anterior só podem circular em espaços e vias públicas, ou em espaços e vias privadas equiparadas a vias públicas, para algum dos seguintes propósitos: a) Aquisição de bens e serviços; b) Deslocações por motivos de saúde, designadamente para efeitos de obtenção de cuidados de saúde; N.º 57 20 de março de 2020 Pág. 11-(7) Diário da República, 1.ª série c) Deslocação a estações e postos de correio, agências bancárias e agências de corretores de seguros ou seguradoras; d) Deslocações de curta duração para efeitos de atividade física, sendo proibido o exercício de atividade física coletiva; e) Deslocações de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia; f) Outras atividades de natureza análoga ou por outros motivos de força maior ou necessidade impreterível, desde que devidamente justificados”. É neste artigo que reside a maior dificuldade de todas: manter os nossos mais velhos em casa. Como o fruto proibido é sempre o mais apetecido agora é o momento em que a grande maioria dos mais velhos quer muito ir passear e andar na rua. No entanto esta é a altura de sermos racionais e de usarmos o bom senso. Caso a residência onde more o seu mais velho tenha jardim podem usar o jardim para fazer uma pequena caminhada e apanhar ar. Se morar num apartamento é possível, segundo o decreto, dar um pequeno passeio. No entanto por uma questão de prevenção o melhor é pensar em actividades que se possam fazer dentro de casa e que estimulem cognitivamente os mais velhos. É imperativo que evitem as notícias todo o dia porque só contribui para o desenvolvimento de ansiedade e nervosismo numa situação já de si delicada. Mantenha o contacto com netos e familiares através da tecnologia disponível e oiça com atenção os medos e os desabafos que possam surgir. É muito importante que não se dê espaço ao surgimento de sentimentos de solidão. O foco principal durante todo este tempo, que ninguém sabe quanto será, é manter a esperança de que tudo isto vai passar. A esperança de que passando esta tormenta daremos mais valor ao estarmos presentes e nos podermos abraçar. A esperança de que continuaremos esta onda de solidariedade e cuidado com o outro porque só assim poderemos ser uma sociedade mais feliz. Deixarei alguns links úteis para lidarmos melhor com esta situação. No próximo texto espero que seja possível escrever sobre o fim de tudo isto até lá fique em casa! 

https://dre.pt/home/-/dre/130473161/details/maximized

http://covid19.min-saude.pt/

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