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Sensatez

No passado dia 30 de abril (sexta-feira) ficamos a saber que passaríamos de estado de emergência (o mais gravoso da nossa constituição) para um estado de calamidade pública que nos permitiria um alívio nas medidas restritivas e o início do desconfinamento. É claro que todos nós nos sentimos aliviados por este novo estado, no entanto é essencial manter uma atitude vigilante de proteção. Afinal de contas o Covid-19 não desapareceu e continua a ser um perigo real principalmente para os mais velhos ou doentes crónicos. E é com base nisto que importa que haja sensatez na gestão do desconfinamento dos mais velhos. É verdade que já não há uma obrigação de confinamento para os mais velhos apenas por terem mais de 70 anos de idade, no entanto é importante relembrar que esta doença é especialmente letal para os mesmos por muitas vezes terem outras comorbilidades associadas. Surge, portanto, a pergunta: Então o meu familiar mais velho não deve sair de casa?  Apesar de não haver o certo e o errado em relação ao desconfinamento dos mais velhos há duas questões a ter em conta. A primeira prende-se com o dever cívico de manter o confinamento. Quer isto dizer que apesar de não ser obrigatório manter o confinamento há um dever de continuar em casa por forma a prevenir o surgimento de novos casos. A segunda questão prende-se com o zelo pelo bem-estar físico e psicológico de todos nós e em especial dos mais velhos. É natural que passados quase dois meses de confinamento, com excepção para breves passeios higiénicos, haja necessidade de sair de casa para “espairecer” ou até mesmo para reencontrar a rede social informal (vizinhos, amigos no bairro, etc) com quem se perdeu o contacto. Há também a necessidade de recuperar a capacidade motora que, devido ao confinamento na habitação, se perdeu. A resistência não será a mesma e é importante voltar a caminhar e a readquirir essa mesma capacidade perdida. Poderemos perguntar como é que conciliamos estas duas questões: o dever cívico de confinamento vs a necessidade de desconfinamento. É neste momento que deve prevalecer a sensatez e a prudência. Podemos proceder a um desconfinamento gradual de maneira a que não incumpramos o dever cívico e a que seja garantido que o nosso mais velho tem as suas necessidades atendidas. Por exemplo: O pai gostava muito de manhã ir tomar o pequeno-almoço ao café, onde conversava com os vizinhos e amigos, e ir comprar o jornal à papelaria da esquina onde também já o conheciam tão bem. E enquanto o fazia acabava por caminhar bastante. Como é que podemos regressar a esta realidade sem o pôr em perigo? Podemos sempre simular o trajecto e ir com ele comprar o jornal à papelaria depois de tomar o pequeno almoço em casa. Isto é claro com as devidas protecções e distâncias sociais. Este é um dos cenários, mas também é possível que a pergunta seja a seguinte: O meu familiar mais velho não quer sair de casa porque tem medo. O que devo fazer?   Em primeiro lugar é importante ser compreensivo com o medo que o mesmo está a sentir. Esta é uma questão que deve ser dialogada e nunca forçada. É claro que há questões importantes como as que referi a pouco, mas a vontade do mais velho deve ser respeitada e dialogada até que o mesmo esteja pronto para sair. Há alguns exercícios que podem ajudar a recuperar alguma mobilidade dentro de casa e que ajudam a colmatar a falta de caminhadas no exterior. O mais importante nestas questões é sempre manter a calma, a sensatez e o respeito pelo outro.

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Ficar em casa

Desde dezembro que ouvimos rumores de um novo vírus na china que, inicialmente, afectou apenas 50 pessoas. Para sermos verdadeiros a realidade é que nós, europeus, não ligamos muita importância às notícias que nos chegavam do oriente. Com a grande intensidade de tráfego aéreo, em negócios ou em lazer, este novo vírus chegou, no final do mês de janeiro, a território europeu. A partir dai a OMS declarou, a 11 de março, o Covid-19 uma pandemia. Os grupos de maior risco são os idosos e as pessoas com doenças crónicas e por isso há regras mais restritivas para estes grupos sendo as mesmas descritas no decreto n.º 2-A/2020 resultante da presidência de conselho de ministros. O artigo 4º diz o seguinte: “Ficam sujeitos a um dever especial de proteção: a) Os maiores de 70 anos; (…)2 — Os cidadãos abrangidos pelo número anterior só podem circular em espaços e vias públicas, ou em espaços e vias privadas equiparadas a vias públicas, para algum dos seguintes propósitos: a) Aquisição de bens e serviços; b) Deslocações por motivos de saúde, designadamente para efeitos de obtenção de cuidados de saúde; N.º 57 20 de março de 2020 Pág. 11-(7) Diário da República, 1.ª série c) Deslocação a estações e postos de correio, agências bancárias e agências de corretores de seguros ou seguradoras; d) Deslocações de curta duração para efeitos de atividade física, sendo proibido o exercício de atividade física coletiva; e) Deslocações de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia; f) Outras atividades de natureza análoga ou por outros motivos de força maior ou necessidade impreterível, desde que devidamente justificados”. É neste artigo que reside a maior dificuldade de todas: manter os nossos mais velhos em casa. Como o fruto proibido é sempre o mais apetecido agora é o momento em que a grande maioria dos mais velhos quer muito ir passear e andar na rua. No entanto esta é a altura de sermos racionais e de usarmos o bom senso. Caso a residência onde more o seu mais velho tenha jardim podem usar o jardim para fazer uma pequena caminhada e apanhar ar. Se morar num apartamento é possível, segundo o decreto, dar um pequeno passeio. No entanto por uma questão de prevenção o melhor é pensar em actividades que se possam fazer dentro de casa e que estimulem cognitivamente os mais velhos. É imperativo que evitem as notícias todo o dia porque só contribui para o desenvolvimento de ansiedade e nervosismo numa situação já de si delicada. Mantenha o contacto com netos e familiares através da tecnologia disponível e oiça com atenção os medos e os desabafos que possam surgir. É muito importante que não se dê espaço ao surgimento de sentimentos de solidão. O foco principal durante todo este tempo, que ninguém sabe quanto será, é manter a esperança de que tudo isto vai passar. A esperança de que passando esta tormenta daremos mais valor ao estarmos presentes e nos podermos abraçar. A esperança de que continuaremos esta onda de solidariedade e cuidado com o outro porque só assim poderemos ser uma sociedade mais feliz. Deixarei alguns links úteis para lidarmos melhor com esta situação. No próximo texto espero que seja possível escrever sobre o fim de tudo isto até lá fique em casa! 

https://dre.pt/home/-/dre/130473161/details/maximized

http://covid19.min-saude.pt/

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Com quem podemos contar?

No texto passado vimos a importância de a cada início de ciclo, definir novos objectivos. Ficou por responder a quem podem recorrer os mais velhos na prossecução destes objectivos. No fundo o que se pergunta é “com quem podem contar? “. Para responder a esta questão importa olhar para a teoria da vinculação. A vinculação diz respeito a uma ligação que, uma vez estabelecida, tende a ser duradoura assumindo um tempo e espaço próprios (Moreira,2004). Já segundo Bowlby (1990), é vista como algo que possibilita o desenvolvimento da capacidade de estar só; em que o vínculo afectivo bem estruturado representa o alicerce para um desenvolvimento saudável da personalidade. Bee (1996) define a vinculação como variação do vínculo afectivo, onde há a necessidade da presença do outro e uma maior segurança na presença do mesmo. Neste sentido o outro é uma base segura a partir da qual o indivíduo explora o mundo e experimenta novas relações. Bradley e Cafferty (2001, citado por Cookman, 2005) referiram que a vinculação é relevante no processo de envelhecimento em três grandes áreas: (1) prestação de cuidados em caso de doença crónica, (2) luto e lidar com a perda, e (3) adaptação ao envelhecimento e bem-estar na velhice. Acresce que, a consciência de que a vinculação é tão relevante na velhice como noutras fases da vida ajuda a combater estereótipos relacionados com os idosos bem como a subvalorização de certos acontecimentos.  Ocorre, não raras vezes, que idosos cuja saúde está em declínio podem contar com a ajuda contínua de terceiros, como médicos, enfermeiros ou cuidadores formais. Em tal situação, os idosos podem desenvolver relações de vinculação com os profissionais referidos que os ajudam a satisfazer as suas necessidades de conforto e apoio emocional (Cicirelli, 2010). Podem, também, e com o evoluir do tempo, emergir novas relações de vinculação com filhos e netos pelo que, embora o número de relações de vinculação possa não diminuir com a idade, podem surgir alterações no tipo de pessoas a quem o idoso se vincula (Nicole, Doherty & Feeney, 2004, citado por Assche et al., 2013). O conceito de qualidade de vida está relacionado à auto estima e ao bem-estar pessoal e abrange uma série de aspectos como a capacidade funcional, o nível socioeconômico, o estado emocional, a interação social, a atividade intelectual, o autocuidado, o suporte familiar, o próprio estado de saúde, os valores culturais, éticos e a religiosidade , o estilo de vida, a satisfação com o emprego e/ou com atividades diárias e o ambiente em que se vive. O conceito de qualidade de vida, portanto, varia de autor para autor e, além disso, é um conceito subjetivo dependente do nível sociocultural, da faixa etária e das aspirações pessoais do indivíduo. Conclui-se, desta forma, que a vinculação nos idosos é relevante para a sua qualidade de vida (psicológica, mental e social) e que as diferenças individuais, no que concerne aos estilos de vinculação, estão relacionadas com reações distintas aos desafios presentes ao longo do desenvolvimento. Apesar destas noções e da ênfase original de Bowlby sobre a vinculação como um processo de vida, tem-se atribuído pouca atenção à vinculação na velhice, comparativamente a outras etapas do ciclo vital.  Para além dos vínculos que cada um vai formando ao longo do seu ciclo de vida há outra variável muito importante à equação pessoal que permite alcançar a tão desejada qualidade de vida. Estamos a falar, claro está, da personalidade. No próximo texto veremos quais são e que impacto têm no ciclo vital de cada um.

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(Re)Começos

A cada início de ano há uma sensação de oportunidade que nos invade. Ainda que a diferença relativa ao ano anterior seja apenas de alguns dias, sentimos que temos uma nova oportunidade de recomeço. De corrigir o que foi menos positivo, aceitar o que não se pode corrigir e fazer o que ainda queremos fazer. Falamos de objectivos, metas e sonhos. Como se magicamente um mundo de possibilidades se abrisse para nós. Um novo ano é como respirar fundo para continuar o caminho. Mas como é que ao fim de tantos “novos anos” podemos continuar a definir objectivos? De que forma é que, como família, podemos encorajar os mais velhos a manter esta vontade de alcançar novas metas?  Em primeiro lugar é necessário utilizar a ferramenta essencial às relações humanas (de que já falamos tantas vezes): a comunicação. Comunicar vem do latim communicare que significa tornar comum, partilhar, conferenciar.  Este é o primeiro passo: escutar as ambições do outro, os medos, e os sonhos, independentemente da idade de cada um. Este exercício de escuta pode ser feito de forma mais ou menos intencional. Um bom momento para isto é a refeição, em que a família se reúne, que é um momento privilegiado para partilha. Hollywood em 2007 lançou um filme chamado “The Bucket List” que retratava a história de vida de dois homens que, estando internados num hospital em fase terminal, decidiram partir e cumprir todos os objectivos/sonhos que ainda tinham por realizar. Para isso escreveram aquilo que dá nome ao filme: uma bucket list. Em português podemos chamar-lhe de lista de desejos. Não precisam de ser desejos megalómanos podem ser desejos simples como experimentar aquele restaurante ou andar de avião. A principal ideia é que esta lista seja feita em conjunto e que seja realista. Mas porque é que é tão importante fazer este exercício? Pascal escreveu: “Nada é tão insuportável para o homem como estar completamente em repouso, sem paixões, sem negócios, sem diversão, sem esforço. Ele sente o seu nada, o seu desespero, a sua insuficiência, a sua fraqueza, o seu vazio”. (tradução livre de Pascal, the pensees, 1660/1950, p.57). Também Robert. A. Emmons, um psicólogo americano, referiu que “a consecução de objectivos é um marco importante para a experiência de bem-estar. Quando questionados sobre o que contribui para uma vida feliz plena e significativa as pessoas referem, espontaneamente, os seus objectivos, desejos e sonhos para a vida” (tradução livre). Percebendo, portanto, a importância indiscutível da manutenção do hábito de estabelecer novas metas a cada ano fica a questão essencial: de quem é a tarefa de ajudar os mais velhos a fazer esta reflexão? A quem podem recorrer para a planificação do novo ano que inicia? Será apenas ao agregado familiar ou o resto da família também pode ser envolvida? Falaremos disto no próximo texto… até lá!       

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Natal feliz para todos!

Este texto é para si que tem um familiar que vive com demência. Já vimos anteriormente que a forma como se organiza a vida muda drasticamente quando a um familiar é diagnosticada uma demência. Nestes casos a preparação das festas natalícias requer alguns cuidados. Os dois pontos essenciais que qualquer família deve ter em conta são:

  1. As famílias devem planear tudo com antecedência de modo a reduzir a pressão inerente à época.
  2. As famílias devem estar preparadas para que o dia não corra como planearam.

Obviamente o que a família gostaria é que o natal fosse como sempre foi. Mas importa relembrar que há um membro, naquele ambiente, que já não se lembra de como o natal sempre foi e, por isso, é essencial que haja flexibilidade. Por forma a reduzir o desconforto ficam aqui algumas pistas de como gerir melhor o seu natal com uma pessoa com demência.

  1. Para a refeição de natal comece com algo familiar. Isto ajudará a pessoa com demência a saber que a refeição está a começar e o que vai comer de seguida. Ex: entrada, sopa, prato principal, sobremesa.
  2. Certifique-se de que há bastante contraste na mesa e que se vê claramente a comida nos pratos. Isto ajudará o mesmo a identificar a comida com maior facilidade.
  3. Porções pequenas e, se a pessoa já não souber usar talheres, certifique-se de que há algumas opções que se possam comer à mão (entradas e sobremesas). Certifique-se também que a comida está bem confeccionada e macia para que a mastigação seja facilitada.
  4. Mantenha uma boa iluminação e pouco barulho visto que este pode ser perturbador
  5. Se á mesa estiver também o cuidador formal/informal primário aproveite o momento para o substituir. Os cuidadores por regra estão sempre muito cansados e esta é uma excelente oportunidade para os deixar disfrutar de uma refeição descansados.
  6. Durante a refeição envolva a pessoa com demência nas conversas. Recorra aos antigos álbuns de família, vídeos antigos ou objectos que ajudem a pessoa a lembrar-se de eventos passados. Ainda que essas mesmas recordações sejam fragmentadas ou desconexas esta será uma boa forma de a ajudar a juntar-se à conversa e a sentir-se útil. Não se esqueça de usar frases simples e curtas. Se conversar for muito complicado experimente usar música. O uso de música que remeta ao passado como por exemplo músicas que ouviam ou cantavam no natal são uma valiosa ferramenta para envolver a pessoa com demência na conversa com a família. Este esforço vai fazê-la sentir-se integrada e querida.
  7. Mantenha uma sala à parte sossegada para que a pessoa possa ficar caso se sinta assoberbada. Este sentimento pode manifestar-se de diferentes formas e é muito importante ficar atento aos sinais. Ex: irritabilidade, falta de apetite, apatia, etc.

Não é demais relembrar que não se pode pedir à pessoa que vive com demência para fazer algo que a mesma já não tenha conhecimento de como se faz. Se o seu familiar já não sabe como usar os talheres é escusado pedir insistentemente que o faça. Porque criará ansiedade e nervosismo desnecessário e ele não conseguirá cumprir a tarefa. É essencial que seja flexível e que planeie o seu natal tendo em atenção as necessidades desse familiar. Lembre-se que o que realmente importa é a reunião familiar, o conforto e bem-estar de todos. Se não puder fazer tal como sempre foi feito o que importa é que se faça dentro das capacidades de cada um. Ainda que o seu familiar não tenha todas as faculdades mentais procure envolvê-lo no que for possível. Não permita que por cuidado excessivo o mesmo se sinta apenas um espectador passivo das festividades. Porque ainda há muito que o mesmo pode fazer!  Neste natal ofereça o presente perfeito a quem já teve tantos natais…o seu carinho! Boas festas a todos e até para o ano!

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O natal não é só das crianças

No último texto reflectimos sobre a história de vida de cada um e a importância de não só a conhecermos como de a respeitarmos. Vimos também que para muitos as tradições e os costumes são importantes. Aqueles pequenos ritos que “toda a vida foram assim” são de grande relevância na vida dos mais velhos. Tal como reflete Leny A. Bonfim no livro Família contemporânea e saúde: significados, práticas e políticas: “É possível observar uma revolução silenciosa na demografia intergeracional da vida familiar. Há uma maior possibilidade do idoso hoje fazer parte de uma família que inclui quatro ou cinco gerações, com menor número de membros por geração. Além disso, o número de anos assumindo papéis familiares aumentou dramaticamente (…)”. Estas transformações sociais têm influenciado os hábitos familiares, alterando antigos costumes arraigados. Este novo comportamento passa a ser aceite como uma nova cultura, as famílias incentivadas pela sociedade admitem como necessidade que “os mais jovens também precisam de viver a sua vida” ou “os velhos já viveram a sua”. E sobre esta questão é preciso ter algum cuidado.  Não existem fórmulas para um natal perfeito e muito menos existem tipos familiares homogéneos sobre as quais se possam alvitrar soluções ideais. Mas, na dúvida, se precisar de fazer alterações ao que é habitual na forma como o seu familiar mais velho vive o Natal não se esqueça de uma ferramenta essencial: a comunicação. Converse com o mesmo e envolva-o nas decisões. Não o convide apenas para a ceia para que o mesmo não tenha trabalho. Se a sua mãe/sogra/tia/avó está habituada a ser a impulsionadora das festas e organizadora deixe-a participar (ainda que com possíveis dificuldades inerentes ao seu processo de senescência). Porque o respeito pelos elementos mais velhos da família não passa apenas em tê-lo à mesa com um lugar de maior destaque. Passa, antes, pelo respeito pelas suas opiniões e gostos pessoais. Passa, essencialmente, pelo processo comunicativo que lhe diga, entrelinhas, que o mesmo ainda é essencial à realização das festas e em última instância à família. Não permita que por cuidado excessivo o mesmo se sinta apenas um espectador passivo das festividades. Neste natal ofereça o presente perfeito a quem já teve tantos natais…o seu carinho! Boas festas a todos e até para o ano!

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História de Vida

No último texto reflectimos sobre a solidão, a sua incidência e a forma como pode ser colmatado. Um dos factores fundamentais que vimos é a história de vida da pessoa cuidada. Qual é então a importância de termos conhecimento da mesma? Em primeiro lugar pela necessidade e obrigação moral do reconhecimento da dignidade da pessoa que estamos a cuidar. Independentemente do estado actual do idoso é essencial reconhecer que o mesmo tem uma história de vida bem como um passado que o condiciona a ser o que é e o que será. Este reconhecimento pode muito bem ser a chave para compreender o comportamento da pessoa cuidada. Erik Erikson, na sua teoria acerca do desenvolvimento humano, descreve os vários estágios através do qual acredita que todos os seres humanos passem. São estes:  confiança básica vs desconfiança básica, autonimia vs vergonha e dúvida, iniciativa vs culpa, diligência vs inferioridade, identidade vs isolamento, generatividade vs estagnação e por fim integridade vs desespero. A cada etapa o indivíduo cresce a partir das exigências internas, mas também das exigências do meio em que vive, sendo, portanto, essencial a análise da cultura e da sociedade em que vive o sujeito em questão. Na última etapa o ser humano, segundo Erikson, tem tendência em fazer um processo de retrospecção. A pessoa pode simplesmente entrar em desespero ao ver a morte a aproximar-se. Surge um sentimento de que o tempo acabou, que agora resta o fim de tudo, que nada mais pode fazer pela sociedade, pela família, por nada. São pessoas que vivem em eterna nostalgia e tristeza pela sua velhice. No entanto a vivência também pode ser positiva. A pessoa sente a sensação de dever cumprido, experimenta o sentimento de dignidade e integridade e divide a sua experiência e sabedoria. Existe ainda assim o perigo do individuo se julgar o mais sábio, e impor suas opiniões em nome da sua idade e experiência. Tendo isto em conta a forma como a pessoa se comporta é indicador do seu próprio processo de envelhecimento. O conhecimento do mesmo e da sua personalidade é uma garantia de que os cuidados serão o mais humanos possível. Porque se a senhora Maria foi professora toda a vida e trata-la por Doutora a faz sentir melhor é assim que deve ser tratada. Se a senhora Joaquina teve uma secretária que a tratava mal com o mesmo nome que a cuidadora isso pode explicar o porquê de agora, anos mais tarde, a mesma não querer estabelecer uma relação de confiança com a mesma. Tal como o senhor Manuel, que toda a vida gostou de conversar profundamente sobre o sentido da vida e do seu trabalho, continuará a fazer o mesmo. As pessoas idosas não são novos seres com outras personalidades quando chegam a essa fase. São pessoas que tal como qualquer um tem o seu percurso de vida, a sua soma de alegrias e tristezas e a sua personalidade. O (re)conhecimento desta dimensão pessoal e social dos mesmos é essencial para que os cuidados e a sua manutenção na vida social sejam facilitados. Para a Home 24 este respeito pelas tradições, costumes e vivências são essenciais para que, em parceria com a família, os cuidados sejam garantes da qualidade de vida da pessoa idosa. No próximo texto falaremos sobre as tradições e os costumes tão importantes para os idosos. Até lá!

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Solidão

No texto passado vimos a relação entre a cuidadora e o/a idoso/a e as suas vantagens e terminamos o mesmo com a seguinte questão: “Será esta nova relação o suficiente para mitigar o sentimento de solidão de que muitos idosos sofrem?”.  Para encontrar a resposta precisamos primeiro de perceber o que é realmente a solidão. Segundo Weiss (1973) a solidão é um sentimento que consiste no isolamento emocional que resulta da perda ou inexistência de laços íntimos e do isolamento social, com a consequente ausência de uma rede social com os seus pares. No entanto, e apesar desta definição parecer completa, há que ressalvar que os idosos podem ter uma rede social extensa e sentirem-se sós na mesma. Este sentimento pode resultar de vários factores: situacionais e características pessoais. Os factores situacionais podem englobar a diminuição de contacto social, a alteração do estatuto social, perda relacional, redes sociais inadequadas, situações novas, entraves indirectos ao contacto social, fracasso e factores temporais. Com isto quer-se dizer que a situação referente às relações socio-afectivas do idoso nomeadamente ausência de contacto frequente com pessoas relevantes para si, alteração da capacidade de se relacionar e a perda de estatuto social entre os pares podem afectar a pessoa idosa. Mas em que é que isto se traduz efectivamente? Traduz-se na mudança de casa (pelas mais variadas razões), na incapacidade de sair de casa e beber café com os amigos habituais, na falta de visitas de familiares e amigos relevantes ou até mesmo no conhecimento público do seu processo de envelhecimento (que pode, ou não, impedir o idoso de se relacionar com os demais).  Para além disto há que ter em conta os factores pessoais de cada um. A presença de sintomas depressivos, a possível timidez ou introversão, a auto-estima, o auto-conceito e as habilidades sociais têm um papel muito significativo no possível desenvolvimento da solidão. Sendo estes os factores principais que conduzem uma pessoa ao sentimento de solidão o que é que pode ser feito para prevenir e ou numa fase mais tardia colmatar a mesma? Antes de mais importa compreender que o ser humano (independentemente da idade que tenha) é um ser social. Todos precisamos, em maior ou menor escala, de ter laços emocionais seguros que nos possam nutrir emocionalmente. Nenhuma relação pode ser substituída. Significa isto que todos os ente-queridos (amigos, familiares etc) que o idoso já perdeu não poderão ser substituídos por novas pessoas na sua vida. No entanto a presença de uma nova pessoa, como por exemplo uma cuidadora, pode ajudar a colmatar esta ausência. A presença da mesma nunca irá substituir o/ a esposo/a, mas ajuda a sentir a presença de outra pessoa que está ali para apoiar em tudo o que for necessário. E esta nova presença é, sem dúvida, uma forma de prevenir a existência do isolamento que falamos anteriormente. Porque ainda que a pessoa cuidada não consiga preparar um lanche para receber os amigos, arranjar-se para ir a um almoço de família ou até mesmo usar o computador para falar com um familiar que viva longe, a cuidadora estará sempre lá para garantir que isso acontece. Desta forma o bem-estar do/a idoso/a fica assegurado e os seus laços são mantidos. Na Home24 temos a política de que a cuidadora deve formar laços de confiança e empatia com a pessoa cuidada, mas nunca poderá substituir a família no que refere à manutenção dos cuidados afectivos tão essenciais ao bem-estar de cada um. Para aqueles que se interessarem por este tema aconselho um filme chamado “Our souls at night” que não só retrata a solidão que alguns sentem, mas também nos relembra que cada um tem a sua própria história de vida. História essa sobre a qual falaremos no próximo texto…até la!   

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Cuidador formal

Quando nos deparamos com a necessidade de ter um cuidador formal, no domicílio, há várias questões que se levantam. Quem vai ser a cuidadora (já vimos anteriormente que a grande maioria das pessoas nesta profissão são mulheres)? Como vai o pai/mãe reagir a esta nova presença? Como vamos organizar os cuidados? Como gerir as expectativas e encarar as possíveis falhas? Antes de mais importa definir “cuidador formal”. O cuidador formal é o profissional que presta cuidados aos idosos, de acordo com a sua profissão, recorrendo às competências adquiridas em sequência de uma formação específica, para os quais aufere uma quantia. Este cuidador deve reger-se, desejavelmente, pelos princípios básicos do respeito pela dignidade humana intrínseca à pessoa a ser cuidada. Este respeito dita que os cuidados sejam administrados à medida daquela pessoa, isto é, apesar de existirem procedimentos estandardizados que idealmente servem para todos deve sempre existir o cuidado de adaptar os mesmos à situação particular da pessoa recipiente de cuidados. Porque cada um é único e tem necessidades próprias.  Como é natural em todas as relações humanas as primeiras impressões são muito importantes naquilo que será a relação que se estabelecerá. Importa, também, compreender que quando os cuidados prestados ao idoso, na impossibilidade de serem feitos pelos familiares ou outros no contexto domiciliário há que atender a características específicas do contexto que “ditam” atitudes também elas específicas: a habitação e as recordações a ela associadas alcançam, no idoso, uma importância aumentada, verificando-se um aumento da permanência na habitação com a idade; cada móvel ou objecto tem um significado. A atitude da cuidadora tem de atender a isto. Portanto a escolha da cuidadora deve sempre passar por encontrar alguém que possa responder não só às necessidades físicas do idoso, mas também às necessidades psicossociais do mesmo. Após esta escolha ser realizada existe sempre um período inicial em que ocorreram alguns ajustes e naturalmente alguns mal-entendidos de vontades que muitas vezes são vistos como falhas. Como já foi referido anteriormente cada pessoa é um ser único e o processo de estabelecimento de intimidade e de rotina de cuidados leva algum tempo a ser estabelecido e ajustado. Com o tempo a cuidadora passará a ser também uma pessoa próxima e querida. Este estreitar de laços é muito importante para que os cuidados sejam recebidos de forma mais natural. Acontece por vezes nesta fase o uso de expressões tidas como infantis que visam reflectir o carinho e a proximidade que é desenvolvida no contacto prolongado com a pessoa idosa, sendo paralelamente uma forma de estabelecer um contacto de maior proximidade e familiaridade. Esta é uma questão importante como frisado antes nem todos os idosos são iguais e por isso nem todos reagem da mesma forma a este tipo de familiaridade. Será esta nova relação o suficiente para mitigar o sentimento de solidão de que muitos idosos sofrem? Veremos isso no próximo texto, até la!

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